PIANO E VOZ

 

O trabalho reúne, pela primeira vez, a voz preciosa de Ná Ozzetti e o talento do pianista André Mehmari, em um punhado de canções que esquadrinha a música brasileira em vários períodos e também abrange o que há de melhor na canção internacional.

 

O projeto começou quase por acaso. André e Ná foram convidados para participar da série de shows Piano e Voz, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2004. Nunca haviam trabalhado juntos mas a comunhão foi tão grande e tão boa que resolveram continuar e fez-se registro.

 

Eles explicam o processo do trabalho. Ná: “Começamos escolhendo canções que nos chamavam atenção e nos despertavam o desejo de interpretá-las, cada um de nós com suas preferências. Depois, o que pesou foi sentir quais rendiam melhor resultado para a natureza musical tanto do duo como individualmente”. André: “Sempre que escuto uma música bonita, ganho um sonho: o de gravá-la com carinho. Muitas dessas músicas e sonhos se ‘materializaram’ neste projeto: encontraram seu caminho natural de existir, dentro da minha produção musical”.

 

O repertório, que tem canção do próprio Mehmari, em parceria com Cristina Saraiva (Vôo da bailarina) e vai até Pixinguinha (Rosa) mas passa também por Caetano Veloso (O ciúme), Luiz Tatit e Dante Ozzetti (Nosso Amor), Zé Miguel Wisnik e Paulo Neves (Pérolas aos poucos), Nelson Cavaquinho (Luz Negra) e Tom Jobim (Gabriela), entre outras.

 

Piano e Voz por Arthur Nestrovski

 

Bastam alguns segundos – cinco, para ser preciso – para que a gente se dê conta de que algo muito diferente está acontecendo aqui. Diferente e espantoso: cinco segundos é o tempo que leva a primeira parte do tema da Oferenda Musical de Bach, uma linha isolada e sóbria tocada por André Mehmari como acompanhamento de “Pérolas aos Poucos” (Zé Miguel Wisnik/Paulo Neves), que Ná Ozzetti, de sua parte, entoa num registro novo, para ela e para nós, projetando a canção num outro reino.


Muitas coisas se anunciam cruzada e simbolicamente neste início. Se o contraponto, em si, que o pianista vai desfiando com rigor e exuberância barrocos, já não é comum como forma de acompanhamento de uma canção popular, que dizer dessa referência explícita ao grande mestre do século 18, abandonada sem qualquer culpa no refrão, só para retornar depois, com direito até à famosa “terça da picardia” que fecha essas “Pérolas” em modo maior?

 

A essa altura, nós já fomos introduzidos num campo particular, num gênero sem nome, que este disco explora como nunca, e onde a canção atravessa livremente os limites que definem o dito “clássico” e o dito “popular”. Uma das coisas que Ná e André nos mostram, com eloqüência toda própria, é a força de uma memória que vive, meio inconscientemente, na nossa música. É isso o que torna possível tirar de dentro dela tantas figuras – latentes, adormecidas, sugeridas. Os modos como isso se dá são os mais variados, e cada um articula seus sentidos. Só para dar mais um exemplo, irresistível: a citação do tema de Nino Rota, para o filme Amarcord, de Fellini, na introdução (e depois, no acompanhamento) de “A Ostra e o Vento”, de Chico Buarque – os relembrados ventos do inverno italiano circulando no verão do outro lado do mundo, embalando outras memórias de amor.

 

Claro que ninguém precisa sair à cata dessas referências. Da primeira à última faixa, o disco paralisa quem escuta, com uma beleza arrasadora e direta. A começar pelo canto. Com tantos anos de música vivida – desde o trabalho fundador com o Grupo Rumo, na década de 1980, passando pelos quatro discos solo, entre tantas outras coisas –, uma artista como Ná chegou àquele estágio quando tudo se faz num grau de refinamento sutilíssimo que, ao mesmo tempo, é o da maior simplicidade. Ar e espírito. Um traduzido no outro, a cada sílaba, e cada sílaba conquistando o corpo do que diz. Numa boa parte do disco, cabe a ela sustentar praticamente sozinha as canções, enquanto uma outra música acontece ao seu redor, comentando, de dentro e de fora, a medula do canto.

 

Pois, se Ná é a cantora total, André é o pianista dos pianistas, multiplicando façanhas com aquela facilidade que têm esses seres cuja língua materna parece ser feita de notas musicais. Às façanhas dos dedos correspondem outros tantos malabarismos da imaginação, jamais gratuitos, jamais ingênuos. Aqui, como no seu impressionante disco Lachrimae, do ano passado, chamam a atenção, em especial, duas coisas: o já comentado uso do contraponto – mil e uma frases florescendo na textura da música, com direito aos madrigalismos (a imitação musical do que está sendo dito em palavras) – e o seu uso originalíssimo do tempo, elasticamente variado, quase como um parâmetro à parte, especialmente nos solos.


Tudo isso para criar ou recriar um repertório, que agora não é mais popular nem erudito. São canções brasileiras, ponto. Canções brasileiras (incluindo as estrangeiras), que se reinventaram e nos reinventam, também, como ouvintes. Reinventam-se uma a uma, e umas com as outras: seja na junção direta – como, por exemplo, na combinação da canção tradicional gaúcha “Piazito Carreteiro” com a “Queda d’Água” de Caetano Veloso (composta depois de uma visita à cascata do Caracol, no Rio Grande do Sul, o que, mais uma vez, não vem ao caso e vem) –, seja na conversa das canções entre si, formando um quase cânone instantâneo, onde convivem os contemporâneos paulistas Zé Miguel Wisnik, Dante Ozzetti e Luiz Tatit com figuras clássicas do cancioneiro, como Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Tom Jobim – sem falar no próprio Mehmari –, cada um jogando suas luzes sobre os outros e sendo iluminado de modo novo por eles.

 

Bastam cinco segundos para que a gente se dê conta de que algo espantoso está acontecendo aqui. É um alento, depois, pensar que se tem o resto da vida para escutar este disco. Um alento e, curiosamente, uma espécie de orgulho também. Porque quando se escuta um trabalho dessa ordem, é quase como se fosse nosso também, como se toda uma época se reconhecesse ali, onde nunca se tinha visto antes. Quase como se, pela simples graça de habitar o mundo ao mesmo tempo que eles, alguma coisa da arte de Ná e André também fosse nossa, justificando e explicando tudo o mais que se fez ou não fez. Isso é uma ilusão, claro; mas uma ilusão que explica e justifica a vida, entregue aos deuses do passado e do futuro na forma eterna de quinze canções.

 

Piano e Voz by Arthur Nestrovski

 

Just a few seconds – five, to be precise – are needed for us to become aware that something very different is happening here. Different and amazing: five seconds is the time taken by the first part of the theme of Bach's Musical Offering, a detached and sober line played by André Mehmari as an accompaniment to “Pérolas aos Poucos” [Pearls Few by Few] (Zé Miguel Wisnik / Paulo Neves), that Ná Ozzetti sings in a new register, for her and for us, projecting the song into another realm.

 

Many things are announced in the crossings and symbols of this beginning. Though the counterpoint itself, through which the pianist challenges with baroque rigour and exuberance, is no longer common as a form of accompaniment of a popular song, what should we say of this explicit reference to the great 18th century master, blamelessly abandoned in the chorus, only to return later, with a right to the famous “Mardi Gras Tuesday” which closes these “Pearls” in major scale?

 

At this point, we have already been introduced into a particular field, to an unnamed genre, into which this disc pioneers, and where the song freely crosses the boundaries that define the so-called “classic” and “popular”. One of the things that Ná and André eloquently show us is the strength of a memory that lives, half unconsciously, in our music. It is this that makes it possible to bring out of it so many figures – latent, dormant, suggested. The ways in which this happens are varied, each one articulating its own senses. To give just one more irresistible example: the quote from Nino Rota's theme for the film Amarcord, by Fellini, in the introduction (and then in the accompaniment) to “A Ostra e o Vento” [The Oyster and the Wind] by Chico Buarque – the well-known winds of the Italian winter circulating in the summer on the other side of the world, cradling other memories of love.

 

Of course no one needs to go out in search of these references. From the first to last track, the disc stuns the listener with its sharp and devastating beauty. Starting by the singing. With many years of musical experience – from the founding work with the Rumo group in the 1980s, then her four solo albums, and much else – an artist like Ná has reached that stage when everything is carried out with a subtle degree of refinement that also has great simplicity. Air and spirit. One translated into the other, at each syllable, and each syllable conquering the essence of what is said. In much of the disc she virtually alone sustains the songs, while other music is taking place around her, commenting, from inside and outside, on the essence of the singing.

 

 

And if Ná is the total singer, André is the pianist of pianists, multiplying his feats with the ease of those beings whose mother tongue seems to be made ​​of musical notes. The feats of juggling the fingers match so many other feats of the imagination, never useless, never ingenuous. Here, as on his impressive Lachrimae [Tears] disc, released last year, two special things strike you: the already mentioned use of counterpoint – a thousand and one phrases blooming in the texture of the music, in accordance with the madrigalisms (the musical imitation of what is being said in words) – and his highly original use of time, varied elastically, almost as a parameter apart, especially in the solos.

 

All this to create or re-create a repertoire that is neither popular nor scholarly. They are Brazilian songs, full stop. Brazilian songs (including those from abroad), which are re-invented and also reinvent us as listeners. They reinvent themselves one by one, and some with each other: whether directly bringing them together, as, for example, the combination of the traditional gaucho song “Piazito Carreteiro” [Small Waggoner] with “Queda d’Água” [Waterfall] by Caetano Veloso (composed after a visit the Caracol Waterfall in Rio Grande do Sul, which, once again, it not part of the composition and yet is), whether in the conversation of the songs with each other, forming an almost instantaneous canon, where the contemporary São Paulo artists Zé Miguel Wisnik, Dante Ozzetti and Luiz Tatit join classical figures from the songbook, such as Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho and Tom Jobim, not to mention Mehmari himself, each throwing their lights on others and being lit anew by these others.

 

It takes five seconds to realize that something amazing is happening here. It is a breath, then, think that you have the rest of your life to listen to this disc. A breath, and, interestingly, also a kind of pride. Because when you hear a work of this nature, it's almost as if it were ours too, as if a whole epoch were recognized there, where it had never been seen before. Almost as if, for the simple grace of inhabiting the world at the same time as they do, something of the art of Ná and André was also ours, justifying and explaining everything else that is done or not done. That's an illusion, of course; but an illusion that explains and justifies life, delivered to the gods of past and future in the eternal form of fifteen songs.

 

 

 

 

 

 

 

FOTOS

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IMPRENSA

MÚSICAS

 

1. Pérolas aos poucos

(Zé Miguel Wisnik / Paulo Neves)

2. O Ciúme 

(Caetano Veloso)

3. Bambino 
(Ernesto Nazareth / José Miguel Wisnik)

4. Because 

(Lennon / McCartney)

5. Rosa

(Pixinguinha / Otávio de Souza)

6. Queda d'água

(Caetano Veloso)

Piazzito Carreteiro (Luiz Menezes)

7. Gabriela

(Antonio Carlos Jobim)

8. Luz Negra 

(Nelson Cavaquinho)

9. A ostra e o vento 

(Chico Buarque de Holanda)

citação tema AMARCORD (Nino Rotta)

10. Nosso Amor 

(Dante Ozzetti / Luiz Tatit)

11. Eternamente 

(André Mehmari / Rita Altério)

12. Chora um rio 

(versão de Arthur Nestrovski para

Cry me a river – Arthur Hamilton)

13. O vôo da bailarina 

(André Mehmari / Cristina Saraiva)

14. Os povos 

(Milton Nascimento / Márcio Borges)

15. Felicidade 
(Lupicínio Rodrigues)

Sete anéis e Infância (Egberto Gismonti)

 

FICHA TÉCNICA

 

Arranjos André Mehmari

Gravado, mixado e masterizado por

André Mehmari no estúdio Monteverdi

em dezembro de 2004.

 

CAPA 

Fotos e projeto gráfico Gal Oppido

Desenvolvimento Eduardo Raimondi

Assistente Kris Knack

Make-up e fugurino (Ná Ozzetti) Luiz Martins

 

Detalhes da Obra (VIÉS 1990/costuras e pigmentos sobre pano) Edith Derdyk

 

Técnico do piano Olívio Valarini Jr.

 

Agradecimentos especiais

Arthur Nestrovski, Lígia Petrucci, Egberto Gismonti, Carlos “Cacá”Lima (YB), UFRGS, Claudia Toni,

Neco Prates, Edith Derdyk.

 

Produzido por André Mehmari e Ná Ozzetti

DISCOGRAFIA > PIANO E VOZ CD > ANDRÉ MEHMARI E NÁ OZZETTI

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